.:poemas:.    


 

fração  violinha de brinquedo  moto-perpetuo
casa   breve flama   autocrítica 
rua fruto à cores
poema poento máquina expressão
ser derrame moral metrópole

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

fração

 

Formas

milimétricamente idênticas

em cores

de sensíveis matizes análogos.

 

Epifania:

santos geométricos

nas colunas

greco-invertebradas

 

repetem-se ad infinitum

na crença moderna

pós-tudo o mais e o nada

nunca na parede

 

de concreto

símbolos rabiscados,

civilizações...

Tudo ao acaso, solto. 

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casa

 

É clara a tua varanda,

e a lua branca é fria.

Repousas sobre a palha

enquanto o fino sereno

umedece as tuas plantas.

 

Não ouves a cidade pétrea

nem seus acúmulos de

anseios, risos e lágrimas.

Apenas deixa-te um tanto,

uma parte alheia, tranqüila.

 

É certo que não te ausentas

tristemente em covardias,

somente dá-se um pouco

a ti mesmo, humildemente,

impunidade e redenção.

 

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rua

 

...agora sai e vê as coisas.

apressa o passo...

 

...a tua pressa inimiga.

apressa o passo...

 

...olha breve e não vê.

apressa o passo...

 

Cansado, voltas desatento

ao teu sono de feto no ventre,

da tua cama quente e áspera.

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poema poento

 

Da cinza ao homem,

o pó

pop

patético.

 

A pá de vento,

lentamente,

cobre o tempo

poente.

 

Tênues partículas secas,

pairando pudendas,

sobre o novo pleito

de Adão.

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ser

 

O que pareço

para

além de mim

não é

o importante.

 

Se

pareço

com o que

certamente não sou,

quem percebe?

 

Sou.

 

E ser já é muito.

 

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Violinha de brinquedo

 

Um dia nascido,

e junto dele um menino:

Pedro,

Paulo,

José,

João ?

 

Era manhã de Domingo.

 

Salve, salve gurizinho !

Reizinho de quintal

de terra,

de batuquinho na panela

de ferro.

 

Salve, salve rei menino !

Vão cantando passarinhos,

vai crescendo o menininho,

dele é o fruto mais docinho.

 

Violinha de brinquedo,

tilim - tilim - no cantinho,

as cordinhas vão vibrando

na ponta dos seus dedinhos.

 

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Breve flama

 

A flama frívola e breve

apaga-se sem aviso,

como se não houvera,

mesmo antes de ser, era.

 

A flama frívola esconde-se

nas arestas incandescentes

dos corações empobrecidos,

fingindo-se chama infinita.

 

De tal flama nascem

os amores noturnos,

que não resistem a luz

do astro que queima.

 

A flama frívola é fraca,

calor quase inexistente,

flama que não importa,

perda que não se sente.

 

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à cores

 

verde:

mata?

 

amarelo:

prata?

 

azul:

raça?

 

branco:

passa.

 

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máquina

 

Era o invento

palavra tempo

o antigo ócio

fez-se lamento

 

Máquinas prontas,

em movimento...

 

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derrame moral

 

O que tenha saciado

o negativo concupiscente,

em perdas de consciência,

resvala a fétida moralidade.

 

O que tenha restado puro

nas paredes coaguladas

do cérebro libido em gosma,

será lavado em água limpa.

 

O pecado, se há, é negar-se.

O demais é o arrependimento,

é a verdadeira penitência,

que trás o verdadeiro perdão.

 

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moto-perpétuo

 

Falta um gesto,

um sinal.

 

Em teus leves ombros

de ereta figura feminina

um resto daquela areia

branca e virgem, repousa.

 

E mesmo todo aquele mar

de dias corridos, avança.

 

Em tua clara fronte

de feições imprevisíveis,

há uma intenção ferina.

 

Mas o que me falta nega

uma existência permanente

em gesto, matéria e sentimento:

 

- Pois que não há o moto-perpétuo.

 

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autocrítica

 

Nenhuma mácula mórbida

do pensamento máquina

fará feliz o manancial

de fracas frases inúteis.

 

Basta-me o fardo ancho

do falastrão infecundo

em pleno ato indecente

de enferrujada falácia.

 

Falta-me o que a todos falta:

calar um tempo.

 

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fruto

 

Palavra colhida de dentro

pelas mãos de uma criança:

colocada à um canto até

que amadureça por si só.

 

E mesmo o sol pela janela

a ilumine em certa hora

fazendo suar seu envoltório

que se refresca em seguida.

 

Palavra descascada:

sumo doce e esperado.

 

Saciedade de qualquer desejo.

 

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Expressão

 

Descobrir-se assim:

auto-expressionista,

inventor de si mesmo;

de cânticos outros,

coros de ninfas ruivas

e palavras paridas:

garatujas de ontem

 

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Metrópole - . . . . . .

extraído da obra de carlos leite

"fraturas urbanas"

panorama da metrópole contemporânea 2001

  

retalhos da cidade

[colcha]

de tecidos vários:

 

.norte. náilon.....

.sul. seda...........

.leste. lona.........

.oeste. organdi...

 

tantos outros

.em

ordens tantas

.em

tantos outros

.em

ordens tantas

. . . . . . . . . . .

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Os poemas acima, escritos entre 1999 e 2001, são de autoria de André Merez - 

 

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