.:Dias
Vermelhos.:
A
luz entrava pela telha quebrada, atravessava o forro e encontrava seu foco
exatamente no olho esquerdo de Pedro. Eram dez da manhã e o despertador ainda não
havia disparado, aliás, nem deveria mesmo tê-lo feito, porque era sábado, mas
por um capricho desses que ninguém pode explicar, Pedro tem o estranho costume
de armar o despertador na sexta feira só para ter o infantil prazer de
desliga-lo e continuar dormindo. Mas aquela luz em seu olho fez com que
levantasse da cama. No banheiro a janela parecia estranhamente diferente, mas só
quando chegou a cozinha percebeu
que algo realmente sobrenatural sondava aquela manhã de sábado. A réstia de
luz que o acordara era vermelha, a luz que entrava pela janela do banheiro era
vermelha, tudo era vermelho, e ele não sabia porque. Parou um instante tentando
entender o que acontecia, mas foi inútil. Confuso, vestiu uma roupa qualquer e
pensou em sair para ter com algum vizinho uma possível explicação ou um
consolo para sua aflição. Mas na porta parou um longo tempo, tentando
encontrar coragem para se meter naquela luz. Finalmente, vencido pelo desespero,
abriu um guarda-chuva e saiu rapidamente.
O
sol, de tão incrivelmente vermelho, criava contra-luzes nas copas das árvores
e parecia ser muito mais quente do que na verdade era. Na primeira casa depois
da sua tocou insistentemente a campainha, atendeu-lhe o Sr Alberto com a mesma
cordialidade de sempre:
-
Sr Pedro, à que devo o prazer de sua visita?
-
O Sr não está vendo?
-
Sim, obviamente, o dia está estupendo...
-
Está vermelho! O céu está vermelho, tudo está vermelho! Não está vendo?
-
Vermelho? Em que sentido, é alguma metáfora?
-
Metáfora? ...Um de nós deve estar louco.
Ao
longo da rua tudo acontecia como de costume, as crianças brincavam, os cães
latiam, as senhoras cuidavam da vida dos outros e etc...
Pedro seguiu atordoado, sem poder raciocinar muito bem.
Decidiu ir ter com sua ex-esposa Laura.
Na
Rua Xavier de Toledo tocou o apartamento 34
e
a mesma voz irritada de sempre no interfone:
-
Quem?
-
Eu, Pedro.
No
elevador, Pedro tentou acreditar que tudo aquilo não havia de fato acontecido,
chegou mesmo a pensar que quando chegasse ao apartamento olharia pela janela e
veria aquele mesmo céu azul e seguro de sempre.
-
Oi Pedro, o que foi dessa vez, mais uma daquelas conversas profundas que não
adiantam nada?
Pedro
correu até a janela. O céu ainda estava vermelho.
-
Laura, está vendo?
-
O que?
-
O céu, está vendo?
-
Sim, e o que tem?
Saiu
apressadamente sem se despedir. Voltou à rua, tentou rapidamente decidir seu
destino: Lucio! Claro, seu melhor amigo haveria de compreende-lo, era sempre
assim, fosse como fosse.
-
Me diga, pausadamente, o que há com o céu?
-
Bem, o céu... Lamento Pedro, hoje não estou para elucubrações. A Marta, você
sabe, foi embora de novo, passei quase toda à noite naquele bar que você já
sabe e...
-
Lucio, por favor, me escuta: O céu está vermelho, compreendeu? Ver-me-lho.
-
Pedro, por favor digo eu! Será o Benedito? Então quer dizer que o mocinho aí
está viajando, e eu cheio de problemas, tenho que ficar aqui ouvindo as suas
alucinações...
-
É sério Lucio, eu não to viajando.
-
Sério? Ta falando sério... Mesmo?
-
É isso aí.
-
Pode ser algum tipo de problema de visão, você sabe, com tanta poluição...
-
Será que é isso?
-
Olha, eu tenho um amigo oftalmologista, você sabe, ele é meio estranho, mas eu
te dou o endereço e ...
Pedro
pegou o endereço e saiu apressado.
O
prédio antigo não era menos estranho que o homem velho de barbas longas e
amareladas que escondia seus olhos atrás de uns óculos de lentes pretas.
-
Bom dia, sou amigo do Lucio, ele me disse que o senhor...
-
Ah o Lúcio! Como vai aquela figurinha? Rapazinho complicado hein? Olha, a Marta
mulher dele...
-
Escuta doutor, eu estou com um problema...
-
Claro que sim.
-
Desde hoje cedo vejo tudo vermelho.
-
Curioso, muito curioso! O senhor fuma algum tipo de erva... O Senhor sabe...
-
Não, isso já faz muito tempo...
-
Quando foi que o Senhor começou a ver tudo vermelho?
-
Hoje quando acordei... Fui dormir ontem umas duas horas mais ou menos, e hoje
quando acordei, pronto! Tava tudo vermelho.
-
Curioso, muito curioso! Sente-se ali, que eu vou examina-lo.
Pedro
sentou-se na cadeira em frente de uma estranha máquina cheia de lentes de vários
tamanhos e botões que acendiam e apagavam. Sentiu-se meio ridículo naquela
situação, mas queria resolver logo aquilo. O velho com uma calma
impressionante movia lentamente as lentes e perguntava:
-
Que cor?
-
Vermelho.
-
E agora, que cor?
-
Vermelho.
-
Curioso, muito curioso!
-
Mas o senhor só sabe dizer isso?
-
Meu amigo, sinto muito. O Senhor tem as vistas perfeitas.
-
Mas como, se está tudo vermelho?
-
Não sei. Em todos esses anos de oftalmologia jamais vi coisa parecida. Sugiro
que o Senhor procure outro especialista.
-
Psicólogo?
-
Psiquiatra...
Pedro
saiu do consultório num estado que ficava entre um fatalismo mórbido e uma
conformação quase cômica. Caminhou muito tempo, até que parou num camelô da
Rua 25 de Março e comprou uns óculos escuros. Os óculos de lentes meio
amareladas misturavam-se com o vermelho que o perseguia e formava uma tonalidade
alaranjada, que não era de se desprezar. Pedro conseguiu até se divertir com a
idéia de ver o mundo daquela cor. Relaxou. Fez o que tinha que fazer:
aproveitou o Sábado.
O
resto do dia correu de maneira extremamente agradável. Pedro divertia-se com as
tonalidades novas que conseguia misturando seu vermelho com as lentes de várias
cores dos muitos óculos que decidiu comprar. Tirava um, colocava outro, e outro
ainda... Parecia uma criança. Ficou assim a tarde toda, e, na hora do pôr do
sol, subiu no Terraço Itália e começou: Tira um, coloca outro, e outro. Ah
que brincadeira legal!
Quando
anoiteceu, Pedro decidiu ir logo para casa, dormir cedo, e aproveitar no dia
seguinte cada minutinho daquele mundo multicolorido que ganhara de presente.
Amanheceu
um Domingo deliciosamente ensolarado e vermelho. Pegou sua coleção de óculos
e saiu pela cidade.
-
Bom dia Seu Alberto!
-
Bom dia Pedro! Lindo dia!
-
Lindo dia!
Começou
seu passeio no Parque do Ibirapuera. Cumprimentava a todos, indiscriminadamente:
-
Bom dia amigo! Lindo dia!
Virou
a cidade de cabeça para baixo, jamais aproveitara tanto um Domingo. Depois do
parque, foi à feirinha do Bexiga comprar velharias, passou pelo MASP, visitou a
Pinacoteca, o Centro Cultural, e ainda arranjou um tempinho para passar no
Jardim Botânico e no Zoológico. Um Domingásso!
Satisfeito
e cansado, voltou para casa e dormiu pensando em como agora sua vida seria
interessante e diferente. Tudo seria novo, alegre, vermelho...
Amanheceu
uma segunda-feira deliciosamente ensolarada e...
-
Cadê o meu vermelho?
Abriu
a janela afoito, e lá estava o dia mais normal de todos os dias normais. Nada
de vermelho, só a mesma luz monótona de sempre.
Pedro
suspirou profundamente, vestiu-se desanimado, e já ia saindo para o trabalho,
quando voltou, pegou sua coleção de óculos coloridos, e saiu cantarolando.
Os
amantes da Rua do Conto.:
Era
uma casa velha de janelas tristes. Duas janelas expostas para a rua. Uma delas,
a da esquerda, ficava aberta com a ajuda de um livro grosso, talvez um
dicionário. Uma vez por dia, lá pelas seis horas, alguém removia o livro para
que a janela descesse de uma só vez. Era assim, à mesma hora infalível num
gesto frio e seco, a janela rabugenta se fechava.
Palavras sem querer seguravam o peso de uma existência que cheirava a eternidade de tão secreta e impenetrável. Demasiada ausência de alegria revestia aquelas paredes acentuando o aspecto velho que as sustentava. Raras vezes ouvia-se comentários a respeito daquela casa, mas dentre os poucos comentários que se ouvia, existe um que me parece, senão interessante, pelo menos curioso. Houve um tempo de extrema felicidade naquela casa, era cheia de vida, as janelas ficavam sempre abertas, e uma bela jovem senhora cumprimentava alegremente os passantes, recebia visitas, havia um cheiro de paz e harmonia que contagiava as almas mais tristonhas e aquecia os corações mais frios. O motivo de todo esse encantamento era provavelmente, a fina adequação de espírito e coração que o casal que ali morava conquistara. Com muita paciência, dedicação e equilíbrio de personalidade, o jovem casal construíra uma união tão sólida e feliz, que nada, nenhum acontecimento inesperado poderia destruir. E assim viveram muitos anos, em perfeita harmonia.
Nos meses seguintes, estranhamente Lúcia desistiu de buscar as causas da atitude de seu marido, recolheu-se então, numa cínica e conformada atitude, cumprindo seus deveres domésticos maquinalmente, enquanto via as flores de sua relação murcharem dia após dia. O tempo tratava de anular no coração de Lúcia, as emoções mais remotas, dando lugar a um sentimento novo, que parecia ter a mesma intensidade do amor que sentira tão fortemente por Alberto nos primeiros anos, mas totalmente inverso, estranho e irreversível. Num momento de confusa contemplação de sua vida, Lúcia triste e inesperadamente conclui que já não amava seu marido.
Lúcia pouco saía de casa além do habitual, quando fazia compras e pagava as despesas do mês. Acostumara-se ao ritmo monótono e tranqüilo de uma existência pouco interessante e extremamente regrada. Em casa depois de seus afazeres diários aproveitava algumas horas lendo, costurando, ou mesmo, em momentos mais brandos, rabiscando poemas. Com a mudança de comportamento de seu marido, Lúcia já não suportava essa monotonia com a mesma alegria e paz de espírito de antes. Agora, quando saía, estendia seu passeio para além do costumeiro, visitava livrarias, entrava em cinemas, andava sem destino observando as pessoas, a movimentação das ruas e sentava-se num banco de uma alameda verde do parque da cidade. Observava as crianças brincando e pensava no filho que nunca teve e que provavelmente jamais teria, pois já passava dos trinta anos e seu marido desde o inicio afirmara não querer filhos. Ali Lúcia respirava humildemente a pouca liberdade que lhe restava, vasculhava pensamentos de sua infância, de como sonhara em escrever livros de poesia, conhecer o mundo e sentir as sensações que agora se tornavam cada vez mais distantes e impossíveis. Esses pensamentos causavam uma verdadeira ebulição de sentimentos em Lúcia, o que quase sempre acabava anoitecendo seus olhos, entristecendo cruelmente seu coração de mulher sensível e manchando sua alma de poeta.
Em casa Lúcia organizara seus movimentos de modo que não precisasse dirigir-se ao marido, que também não se dirigia a ela. Os assuntos corriqueiros que tornavam o diálogo inevitável eram resolvidos num tom de voz claramente isento de qualquer sentimento, na maneira como se tratam os burocratas em suas negociações. À hora do leito era sistematicamente arranjada para que o ultimo a se deitar tivesse certeza de que o primeiro já estava dormindo, e pela manhã Lúcia acordava antes de seu marido, preparava o café e aguardava que este saísse para então se sentar à mesa. Enquanto tomava seu café, Lúcia tentava recolher dentre os acontecimentos passados, ao menos um ponto que pudesse explicar o absurdo que tinha de suportar agora. Já não se importava mais com Alberto ou com o casamento, sua preocupação era com sua vida, com o que fizera dela e em que se transformara.
Alberto desceu as escadas da clínica com um peso insuportável em suas costas, quis chorar, mas era demasiadamente racional para isso. Caminhou apressado algum tempo, mas logo percebeu que a pressa era inútil e sem sentido. Sentou-se no passeio tentando controlar os terrores que as conseqüências de sua situação traria, para ele e para Lúcia. - Lúcia! Lembrou-se com uma dor que não conseguiu sentir totalmente, pois era maior que sua capacidade de suporta-la. O que será de Lúcia? Tentou amenizar a enchente de pensamentos incrivelmente fatalistas que lhe cobriam até o auto da cabeça, consolando-se com a idéia do seguro de vida que há muito havia feito. Assim, transferindo seu sofrimento para o pensamento lógico, levantou-se e caminhou para o trabalho.
No escritório refletiu sobre todas as possibilidades que teria em tão pouco tempo de vida. Reavaliou sua atitude com Lúcia e concluiu que agia corretamente, que seu plano de arrancar sua imagem do coração de Lúcia, contribuiria para amenizar a dor que sua esposa teria de suportar com sua morte.
Tirou algumas folhas de papel da escrivaninha e carinhosamente escreveu as seguintes palavras:
Querida
Lúcia,
Desde
sempre você mora em meu coração, e sempre e muito, minha vida encontrou
sentido em cada pequenino gesto seu. As horas que me proporcionou de
contentamento, terá de volta em gesto profundo de amor e divindade, receberá
em cada manhã de sua vida a força necessária para seguir sem medo e sem
culpa. Terá em uma nova oportunidade, a felicidade e o filho que não pude lhe
dar e o amor que necessita e merece.
Despeço-me
desta maneira, porque assim reduzimos a dor e facilitamos as coisas. Sei que me
conhece bem, sei que entenderá minha atitude. Lamentavelmente aconteceu o pior
e fui acometido de um mal que em breve me afastará de você, por isso meu amor,
peço-lhe que seja feliz, pois a sua felicidade terá para mim um sentido de
perdão e tornará a minha despedida menos pesarosa.
Despeço-me.
Com
todo meu amor
Alberto.
Alberto dobrou a carta colocou-a no bolso direito do casaco e saiu.
FIM
Otávio
era um homem forte, de tronco firme e porte militar, no entanto era extremamente
sensível no trato com as pessoas; delicado mesmo. Cuidadoso consigo, era
elegante e cerimonioso, da maneira menos pedante, demonstrava verdade em seus
gestos e opiniões.
Depois
da morte de sua esposa tornara-se recluso, mas não deixara que nenhuma amargura
aparente deformasse seu perfil de homem virtuoso. Morava sozinho em um
apartamento de dois quartos em um bairro familiar; tinha poucos e bons amigos
com os quais tinha algumas poucas horas de convívio, pois a maior parte de seu
tempo livre era dedicado ao talho da madeira e a produção de xilogravuras que
se espalhavam em varais próximos à janela para secar e em seguida eram
acomodadas num arquivo muito bem organizado. Quando indagado a respeito de uma
exposição de sua produção, este, com ares de franca modéstia, sorria de
lado e mudava de assunto. Metódico, tinha seus horários sob controle, o que
fazia com que, em certas horas do dia, se pudesse vê-lo voltando para seu
apartamento. Sempre sozinho, acenava para alguns vizinhos e recolhia-se. A
vizinhança, em segredo, chegava mesmo a se incomodar com tamanha disciplina, e
comentava: "Um homem tão bom, merece uma boa esposa", mas Otávio era
feliz à sua maneira, seguia seus dias, cumprindo seu ritual sem nenhuma
alteração, sem nenhum excesso.
Esse
seu domínio Taoísta sobre a solidão, não fora conquistado tão facilmente.
Durante o duro período que seguiu a morte de sua esposa, Otavio sofreu dores
terríveis, emagreceu espantosamente, já que pouco se alimentava, e esteve
muito próximo de morrer. Mas curiosamente foi se restabelecendo pouco a pouco,
e a cada dia demonstrava sinais de recuperação, até que voltou à sua forma
física anterior, no entanto menos comunicativo. Há quem diga que sua
recuperação dera-se por conta do nascimento de seu neto Téo, que vez por
outra, era trazido por seu filho para longas tardes de uma harmoniosa
aproximação entre o recém-nascido e o homem maduro que renascia. As
conquistas de Otávio coincidiam com as de Téo, e na medida em que o menino
experimentava o mundo em seus pequenos gestos, o homem igualmente ia
conquistando a vida de volta para si.
Agora
a solidão deixara de ser inimiga e tornara-se uma aliada, tanto em seus
momentos de criação como nas horas mais corriqueiras de sua vida. Não se
habituaria de outra forma, depois de tantos anos vivendo assim, conquistara uma
afinidade com seus silenciosos pensamentos, suas manias no trato com os afazeres
da casa, seus objetos de trabalho singularmente organizados, enfim, seria de
diversas formas impossível que uma outra pessoa coubesse facilmente àquele
modo de vida que escolhera; salvo as visitas de seu filho e seu neto, a ninguém
mais era permitido penetrar sua intimidade, nem mesmo seus amigos.
Mas
as engrenagens perfeitamente azeitadas que moviam as máquinas que Otávio
construíra para viver, não estavam totalmente livres da poeira imprevisível
do tempo, e numa tarde chuvosa encontrou uma mulher em prantos deitada em seu
caminho. Num gesto seguro pegou-a pelo braço e a levantou para junto de seu
peito. A mulher que soluçava não se opôs a acompanha-lo silenciosamente até
o calor de sua casa que desde a morte de sua esposa jamais abrigara uma mulher.
Otávio ofereceu-lhe roupas secas e uma toalha e retirou-se, no entanto pôde
ver pela porta entre aberta, por um breve instante, seu corpo claro e viçoso.
Alguma
coisa naquela visão o fizera lembrar de Ligia, que penteava os cabelos nua ao
pé da cama antes de aninhar-se em seus braços. Por um momento sentiu de volta
todo o peso que tanto custara para tirar de seus ombros, e uma enxurrada de
recordações confusas inundou sua paz, o que o fez desejar que aquela mulher
estranha fosse imediatamente embora dali. Clara observava detidamente as
gravuras quando Otávio voltou para a sala, e poucas palavras foram suficientes
para que ela entrasse no elevador e desaparecesse. Mas imediatamente Otávio
desceu atrás da mulher e a trouxe de volta para o apartamento pedindo que
ficasse até o amanhecer.
A
chuva, que adquirira uma monótona cadência, parecia eterna. Imediatamente
Clara dirigiu-se às gravuras e continuou a observa-las com muita atenção,
como se aquele oficio lhe fosse intimo, ou aquelas imagens lhe recordassem algo
muito próximo. As gravuras, em sua maioria, apresentavam temática claramente
expressionista; grandes olhos em rostos de perfis cônicos, mulheres de
condoídas feições amamentando crianças igualmente trágicas, interiores
nunca antes imaginados e mulheres nuas sem nenhuma sensualidade aparente. Algo
de sublime escondia-se naquelas imagens, uma espécie de redenção ou um pedido
de socorro, um grito seco e mudo era facilmente identificado em cada contraste
abrupto daquele emaranhado de formas. Absorvida pelas imagens Clara volta-se
para Otávio como quem volta de um transe, seus olhos cansados pareciam tristes,
mas seu rosto, agora mais familiar a Otávio, iluminou-se quando sorriu.
Conversaram
longamente e com uma cumplicidade imprevista, compararam suas alegrias e suas
tristezas, recordaram acontecimentos antigos, até da mais tenra infância,
riram animadamente e com a mesma intensidade ficaram por alguns momentos
tranqüilamente calados sem qualquer ansiedade ou impressão de vazio que
precisasse ser preenchido, como se fossem velhos amigos e pudessem aceitar da
mesma maneira o silencio e as declarações mais intimas, mais absurdas e
secretas. Otávio abriu com prazer uma garrafa de vinho tinto que há muito
estava guardada, enquanto acendia um cigarro que deixara
junto de seus pincéis quando decidira parar definitivamente de fumar.
Clara o observava com olhos de uma afetuosidade quase materna, enquanto movia-se
animadamente pelo recinto, falando e gesticulando descontraídamente, parando
por instantes com as taças na mão quando algum detalhe do que narrava exigia
mais cuidado e atenção. Otávio transformara-se e seu rosto adquirira novas
feições, mais leves, joviais, tão diferentes daquele homem que a tomara nos
braços a poucas horas, daquele homem que pedira tão friamente para que se
retirasse.
Clara
pouco falava e demonstrava um prazer muito sincero em ouvi-lo. Parecia natural
que mesmo ela falando pouco, ambos se considerassem cada vez mais íntimos.
Enquanto Otávio desdobrava-se em confissões de toda espécie, Clara permanecia
atenta e silenciosa e suas expressões se modificavam na medida exata do teor
das confissões. Quando seus olhos e sua atenção se desviaram por um instante
e correram livremente por todo o recinto, pousaram pesadamente sobre o retrato
de uma mulher madura em uma moldura de metal, era Ligia.
Os
cabelos negros e pesados embebidos no sangue espesso que corria por trás de sua
cabeça, sua figura sem vida no duro chão de pedras, as pessoas ao redor, o
sentimento trágico de arrancar-lhe a vida, tudo isso, imediatamente,
transformou Clara mais uma vez naquele ser detestável que desesperadamente
fugira depois do atropelamento. Nunca mais fora a mesma depois daquele dia, o
rosto daquela mulher morta a perseguia incessantemente em cada noite insone, em
cada breve espaço de seus dias, e agora, por uma ironia mórbida, estava diante
do homem que anoitecera tristemente depois da morte daquela mulher.
A
voz de Otávio ressurgia da distância que estivera enquanto aquelas imagens
perturbavam Clara, e num gesto rápido, numa tentativa desesperada de
redenção, a mulher que lhe roubara metade da vida, abriu a camisa que lhe
cobria o corpo e ofereceu-lhe o seio.
O
aroma fresco da manhã despertou Otávio que, percebendo a ausência de Clara,
dirigiu-se calmamente até a janela e pôde ver seu filho que trazia nos braços
seu neto Téo.
Fim
André
Merez
Escritor, Poeta, Ensaísta.